Mais uma vez, cancelada

Escurecia. As nuvens no horizonte sangravam em tons de vermelho e roxo, uma ligeira brisa fria de início de noite corria causando arrepios. O som de pássaros nos jardins e parques era substituído pelo silêncio. Os candeeiros de rua iluminavam o movimento de carros e pessoas, deslocando-se para as suas casas, sem notarem que eram observadas. Uma figura sombria estava parada no telhado de um dos edifícios mais altos, sondando. O tempo está perfeito, pensou.
Vestia de preto, desde o leve lenço na cabeça até às botas pesadas. As mangas do vestido voavam com o vento enquanto ela processava o ritual. Lentamente, procurando a perfeição, desenhava um círculo no chão com um pó prateado enquanto entoava um cântico numa língua estranha. Completou o círculo com um complexo padrão de símbolos, que memorizara. Fechou os olhos enquanto inspirou profundamente, e abriu-os para completar o feitiço. Uma voz de tom diferente da sua saía-lhe dos lábios ao proferir as últimas palavras e fazer os últimos gestos. Sentiu o calor e o arrepio associados ao percorrer da magia pelo seu corpo, sentiu a sua energia a sair de si para fortalecer o círculo desenhado no chão, sentiu a força que entrava agora em efeito, protegendo-a.
Da mala tirou um tubo de cabedal preto inscrito com símbolos brilhantes vermelhos. De dentro tirou um longo pergaminho de textura áspera enrolado, que ao desenrolar mostrava estranhos escritos na cor do sangue. Ela conhecia o que dizia. Lera-o várias vezes. Pensar no que significava acelerava-lhe o bater do coração. Mordeu o lábio em excitação… e depois acalmou. Limpou a mente de tudo e começou a seguir as instruções escritas no pergaminho. Um rubor avançou a partir dos seus lábios, percorrendo o corpo, envolvendo-a como uma serpente se enrola à volta da sua presa. Filamentos dourados percorriam os escritos, consumindo-os, consumindo-a.
Enquanto lia, a sua voz ficava mais forte, ecoando num tom diferente, na voz do autor do pergaminho. Palavra arcana após palavra arcana, um vórtice formava-se metros à sua frente crescendo em tamanho. Por momentos parecia sugar a própria realidade, mas assim que a magia estabilizou, um disco de luz descansava quieto. Ao terminar o feitiço o pergaminho ficou vazio, a sua magia consumida. Ela largou o papel vazio, fitando o portal. Vem, chamou.

Entretanto, perto dali, três jovens percorriam as ruas num Fiat Uno Preto, procurando algo. Zé, de camuflado e corte de cabelo muito curto, conduzia devagarinho, olhando os passeios com atenção. Jay, sentado ao seu lado, estava a dar atenção ao outro lado da estrada, e Ric, fitava um aparelho electrónico com os seus olhos cinzentos atrás das lentes transparentes. Trava! gritou ele.
O carro derrapou com a travagem brusca. Ric olhou pela janela.
– Onde está? – perguntou Zé.
– Tem que estar aqui. – Ric olhou o PDA, um círculo vermelho pulsava numa grelha de ruas. – Tem que estar.
Não havia pessoas estranhas na rua. Um miúdo passeava o cão, uma mulher de cabelos grisalhos levava sacos de compras para casa.
– Malta… – Jay olhava de binóculos para cima, para o topo de um edifício. – Acho que chegámos tarde.
Saíram do carro a olhar para cima. As pessoas nas ruas pareciam não reparar, mas havia uma luz brilhante no topo do edifício. Através dos binóculos, Jay conseguia ver uma figura de vestido preto em frente ao disco, que parecia girar e irradiar uma força estranha.
– É aquela gótica esquisita da outra vez…
Uma criatura surgiu vinda da luz. Era uma figura possante de pele vermelha, com cornos na cabeça. Das suas costas surgiam asas, de membranas, semelhantes às dos morcegos. Trazia nas mãos uma espada e um chicote flamejante. Num instante parecia ter chamas a percorrer-lhe o corpo.
– O que raio é aquilo?
Ric não precisava dos binóculos para distinguir o demónio. Procurava no seu PDA.
– Um Balor.
Jay e Zé espreitaram o ecrã. Um dos piores demónios que podiam encontrar.
– Hmm, o pokédex dá jeito.
Ric olhou-o… o quê?
– Esquece, depois explico-te.
Zé tirou os binóculos das mãos de Jay, e olhou a criatura. Parecia conversar com a rapariga gótica esquisita. – Um baldor é mau?
– Balor – corrigiu Ric.
– Aquela gaja… acho que o “Fernando” voltou a cancelar a sessão.
– Hmm, então o que fazemos? – perguntou o Jay, enquanto carregava aleatoriamente no PDA, percorrendo os vários demónios listados.
O demónio parecia ter terminado a conversa e preparava-se para levantar voo.
– Pah, se a culpa é do “Fernando”, ele que se desenrasque…
Ric acenou.
– Também quem é que mete um scroll de gate no ebay?!
Jay encolheu os ombros e entraram no carro. Ric ainda pensou que tinha sido pena ele não o ter ganho…

2 comentários

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2 responses to “Mais uma vez, cancelada

  1. demonknight

    LIndo! Acho que te vou dar xp por isto! E pela paciencia….

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