Book Crossing

Numa das poucas alturas em que consigo de facto ver o telejornal da RTP1, apanho uma reportagem sobre Book Crossing. Já conhecia o conceito, visto que a Sara e a Sandra falaram-me disto, livros que são lidos e depois deixados em lugar público para que outras pessoas os descubram e os leiam. Nunca encontrei um livro assim, abandonado na rua (pelo menos nunca reparei em nenhum), mas acho que não era capaz de abandonar um livro meu assim, deixá-lo sozinho num banco de jardim, à espera de alguém que o salvasse. Pode ser no entanto uma questão de tempo, até mudar de ideias. Afinal vieram parar às minhas mãos dois livros (mais sobre eles depois de os ler) vindos da Sara e da Sandra, e onde será que eles irão parar?

Quando eu compro um livro, torno-o uma coisa minha. Enquanto o leio, passa a ser parte de mim, as suas palavras passam a ser minha experiência, eu sou apresentada às personagens, de quem formo uma opinião, gosto ou não delas, como se fossem pessoas. O livro faz-me sentir, faz-me pensar, faz-me devorar cada página ou então entretém-me durante um pouco até o pousar em cima da mesa. Um livro meu, é meu. Quando acabo de ler, guardo-o na prateleira, e eu sei que ele vai ficar ali se eu voltar a precisar dele. Mesmo que seja raro voltar a ler um livro, ele está ali se eu precisar dele. Posso emprestá-lo a alguém, ele ser lido por mais uma ou duas pessoas, mas ele voltará sempre para a prateleira. Serei eu demasiado possessiva? Invejosa? O livro sentir-se-á realizado, sendo lido, amado ou odiado, ou apenas indiferente, por apenas uma pessoa?

A ideia de book crossing é diferente. Tu encontras um livro, lês o livro, e depois larga-o para seguir o seu caminho, fazer novos amigos, despertar novas sensações. O livro não é meu, é um viajante vagabundo que alguém soltou no mundo. Um livro assim será mais feliz que os livros na minha prateleira? Não é como se eu pudesse perguntar-lhe, se ele gosta mais de ter as páginas dobradas, a lombada partida, ao invés dos livros novos que eu deixo, lendo-os com o cuidado de não os abrir totalmente para não estragar. O livro não conta mais que as suas palavras impressas. Vendo as coisas de outro lado, se calhar eu preferia percorrer mundo de americas a ásias, de praias a florestas, cidades de arranha-céus a campos de cerejeira em flor, em vez de ficar presa no quarto, a espreitar o céu da janela, apertada na prateleira. Ou talvez não, talvez o gosto do conforto e quentinho fosse mais forte que o espírito de aventura, o vento desagradável do Outono ou a chuva invernal. Não sei, não sou um livro.

2 comentários

Filed under livros

2 responses to “Book Crossing

  1. Eu espero que eles não vão parar a lado nenhum considerando que são um empréstimo…
    Aliás espero que vão parar a minha casa a seguir…
    Sempre pratiquei o Bookcrossing apenas ocasionalmente e tenho lá alguns livros para libertar, mas esses pertencem á minha colecção pessoal.

  2. Oops, lol. Não te preocupes, eu não os deixo fugir. São apenas in-friends book crossing. *nods*nods*

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