Vamos por um atalho…

O sol despontava. Estava o frio habitual de uma manhã de fim de Janeiro.
Um pequeno carro preto, Fiat Uno, amachucado dos anos e maus tratos morrera na berma da estrada. Jay, afastou o cabelo dos olhos para meter os phones nas orelhas e começou a caminhar de mãos nos bolsos. Ric consultava o PDA.
– Deve haver uma terriola a alguns quilómetros daqui.
Zé deu um último pontapé no pneu do carro, resmungando “Lata velha!”, e seguiu atrás deles.
Jay espreitou o ecrã do PDA e olhou em volta, para a mata que circundava a estrada.
– Vamos por um atalho. Se seguirmos por ali, – apontava para o arvoredo, – dá para cortar caminho.
Ric olhou-o com um ar de “Isso não me parece boa ideia” e Zé arqueou as sobrancelhas.
– Não será propriedade privada? – mas o que estava na mente de Ric era se não haveria bichos por ali.
Zé foi atrás de Jay, que já saltara a pequena barreira que separava a berma da mata.
– Ric,- disse,- aqui nem sequer há cobras pequeninas. ‘Bora lá.
Ele seguiu-os, reticente.

A vegetação não era muito densa e deixava-se dourar pela luz de um sol preguiçoso que pouco aquecia. Zé avança na frente do grupo, desferindo golpes de fúria em pequenas pedras e troncos com os pés. Jay observava os ramos das árvores, aqui e ali. Havia um silêncio um tanto ou quanto incómodo, como se houvesse algo que o bosque lhes quisesse dizer, não dizendo nada. Quanto a Ric, tentava não tropeçar em nada ao mesmo tempo que percorria páginas de texto e imagem no PDA, sobre o que quer que seja que fosse.
Zé ia a entrar numa clareira quando pisou um galho particularmente sonoro, e zás! Meia tonelada laranja de riscas pretas saltou-lhe para cima, provocando um estrondo.
Ric caiu para trás com um susto, Jay deu um salto com ar admirado.
Era a porra de um tigre, ali, a quilómetros da Azambuja!
A fera abocanhava o ar, centímetros acima da cabeça do homem, que lutava para não ser dominado pelo tigre. O seu pelo brilhava nos raios que escapavam pelas folhas das árvores, em toda a sua magnitude.
Ric segurava o PDA como se a sua vida dependesse disso, movendo-se lentamente para trás. Jay, por outro lado, aproximava-se.
– Não te mexas, Zé. – Com movimentos demorados, procurava algo na mochila preta.
– Não me mexo?! – o bicho não gostou do berro, e rugiu, mostrando os dentes amarelados.
– Se ela te quisesse matar, já estavas morto. Ela está só a brincar.
– Brincar?!
– Como…, como sabes que é uma ela? – Ric perguntou baixinho, tentando levantar-se encostado a uma árvore.
Ele olhou-o, com meio sorriso nos lábios que dizia “Eu sei.” Tinha conseguido recuperar um embrulho da mochila… cheirava a presunto?
– Que é que estás a fazer?! – Zé afastava a boca do tigre, tentando manter as suas mãos afastadas das presas.
– Ric, prepara o pó para adormecer.
Ele olhou para Jay, ah?!
– O feitiço, disse entre dentes. Como se, duh…
Ah, Ric percebeu a ideia.
Desembrulhado o presunto (Zé esquecera o tigre por momentos e pensava “Isso é nosso!”), Jay conseguira atrair a atenção da tigre que o olhava como a um petisco.
Ric, do outro lado da cena, vasculhava a bolsa à cintura por um saquinho com pozinhos. Assim que o sentiu na sua mão, buscou na sua mente as palavras e os gestos para um feitiço, que iria adormecer, se tudo corresse bem, o tigre.
Com a voz mais baixa que conseguia, sem comprometer a entoação necessária, Ric chamou as palavras da magia, gestuando com as mãos, culminando no lançar de pó sobre o tigre, que parecia preparado para atacar o presunto seguro por Jay.
A nuvem de pó acertou na fera, mas também nos outros dois, que piscaram os olhos por momentos, conseguindo resistir ao efeito mágico. O tigre não foi forte o suficiente, aterrado pesado em cima de Zé, que praguejou.
– Shhh. Não queres acordar o tigre, pois não?

Conseguiram puxar Zé de debaixo do felino, com todos os cuidados que a tarefa implica, e sacudiram-se da terra que o encontro lhes enchera a roupa.
– Vá siga.
– Deixamos aqui o tigre sozinho? – Ric estava de novo com aquele de ar de “Má ideia”.
– Não há crise, andam à procura dele.
– Quem? Como é que sabes?
– Gajos do circo de onde fugiu.
Zé e Ric olhavam-no curiosos. Jay meteu o seu sorriso campeão, e apontou para os phones nas orelhas.
“Sacana,” pensou Zé…
– ‘Pera lá, – começou Ric, subitamente estupefacto, – sabias que andava por aí um tigre quando nos meteste pela mata?!
Jay ignorou-os e continuou a andar calmamente, mãos nos bolsos.


O presente texto é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência. Se quiser saber o que realmente aconteceu, pode fazê-lo seguindo os links: Dois tigres à solta… , Dono do circo Chen diz… , Tigre capturado…

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