Porque é que os orcs não gostam de tomar banho?

A água é maligna, traiçoeira e viscosa. Escorre-te gelada pelas costas ou queima-te as palmas dos pés. Arrasta-te para longe, envolve-te e sufoca-te, roubando o ar dos pulmões, sugando-te da vida. Acreditem, é mesmo assim.

Myeva corria, corria como se não houvesse amanhã, e podia não haver mesmo, caso a enorme torrente de água avermelhada que avançava a toda a velocidade corredor a dentro a atingisse.
Estavam de novo naquela estúpida masmorra debaixo do moinho, quem é que mete uma masmorra por baixo de um moinho? Tinham lutado com um dragão, um DRAGÃO preto, que não deu tanta luta como esperavam… passado por um portal seguindo as pegadas do mago amigo de Lanarien, Alustan, para o encontrar metido dentro de um globo numa sala que atirava raios a quem quer que entrasse. Resgatado o feiticeiro, tinham-na atravessado enfiados num bag of holding e despejados do outro lado, numa escadaria que descia até uma bifurcação. E nesse mesmo momento em que estavam a decidir qual corredor seguir, algo ou alguém abriu a torneira… porta do lado esquerdo e todo o caudal de um rio começou a desenrolar-se, pronto para os atropelar.
Quando Myeva se apercebeu que corria sozinha, soube logo que aquilo iria acabar mal. Os inteligentes subiram as escadas, a estúpida da orc ia em direcção a uma parede.
Mas heis que a parede se abre, para mostrar… mais água. Um rio escoava sobre canais subterrâneos, a corrente era forte, não havia margem, não havia onde se agarrar, e ao fundo do lado direito trovoava uma queda de água. Uma grande queda de água. Perfeito.
Num canto do olho, escondida, avistou uma qualquer espécie de reentrância, onde talvez pudesse encaixar um gancho. Sacou rapidamente da corda, enquanto via a parede de água avançar, pronta para a esmagar. Tinha poucos segundos, talvez seis, uma hipótese de atirar o gancho e safar-se da corrente do rio.
Balançou a corda com o braço, e deu o seu melhor… e era extraordinário, o lançamento era perfeito, o gancho ia mesmo ao lugar. Até ter escorregado na pedra fria e puxado a corda de modo a alterar a trajectória e falhar redondamente o seu alvo. Não teve tempo para se lamentar.
A corrente explodiu nas suas costas, arrastando-a para o fundo do leito do rio, embrulhando-a, virando e revirando-a. Myeva lutava para ir para a superfície, batia-se contra a água, dando murros e pontapés, rasgando a pele contra as rochas. A água puxava para baixo, empurrava-a para os lados. Suprimia-a, roubava-lhe o fôlego. Mas não a derrotaria facilmente.
Ar! Não havia onde se segurar, continuava a ser arrastada para onde o som era mais forte, onde a água caía sabe-se lá de quão alto. Bem, de certo iria descobrir, quer quisesse quer não.
Não era uma cascata. Era uma espécie de túnel, como se fosse um cano… e as paredes eram duras como tudo! Bateu com toda a força contra o chão mas não parou, continuou a rebolar, a cair, e zás! Bateu de novo. Com força. As quedas feriram-na nos braços e pernas, mas a sua cabeça dura continuava lúcida.
Tinha parado numa espécie de lago. Não se via nada, só escuro vazio e água, montes e montes de água. Engano. Vinham uns bichos na sua direcção, guerreiros de vento como os que derrotara antes, num nível superior da masmorra. Boa, não querem mandar um tubarãozinho já agora?!
– Deixa-te ir – ouviu uma voz vinda do nada. Teria bebido demasiado água? Estaria a ficar maluca? – Deixa-te ir.
Lanarien? Parecia a voz dele, mas por outro lado, tinha algo diferente, como som a passar por líquido, e contudo, nem por isso.
Fez o que a voz dizia, largou a rocha a que se agarrara, e deslizou brevemente pela corrente, vendo os guerreiros de vento aproximarem-se cada vez mais.
E de repente, estava a flutuar no meio de armaduras e bainhas de espadas, e um anão a respirar de uma garrafa. Morg disse-lhe olá, com um gesto, como se estivesse a passar por ela na rua. Mas não estavam na rua. Estavam dentro da porra do saco de novo.
Passaram uns minutos e depois foi escorrida para fora do espaço extra dimensional para o chão, perto da ponte onde caíra ao rio (sim, foi um dia excepcionalmente molhado, e não no bom sentido!!), horas antes… bem parecia que tinham decorrido horas.
– Não volto a pôr os pés perto de água, nunca mais!!

2 comentários

Filed under In Character, Roleplay

2 responses to “Porque é que os orcs não gostam de tomar banho?

  1. Pingback: Elemental Campaign « Paper Dragon

  2. demonknight

    Boa descrição de uma atitude à Myeva, nada como uma Barbarian para por as coisas a avançar e dar momentos bem fisicos!

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