Tempestade

Jay tentava manter-se equilibrado em cima do carro escorregadio. A chuva agora caía miudinha, ao de leve, em cima da gabardina preta, mas os estragos já estavam feitos. A rua transformara-se num rio.
A água lamacenta andava pasmacenta sem grande pressa, entrando portas a dentro de cafés e arrastando quiosques. Ali ia um cartaz de circo fora do prazo, além uma mochila de criança flutuava, sem criança, claro.
Olhou para cima, o céu cinzento e partido, sentindo as gotas de água a rolar pelo nariz e a ensopar as jeans e os all-stars. Um grito cortou o murmurar da chuva, Jay virou o rosto para deparar com um barco insuflável vermelho a navegar lentamente com três figuras a exclamar de alegria: Uh-ooooh!!
Pareciam miúdos de 12 ou 13 anos, mas não pareciam miúdos exactamente. Pareciam ter barba e intrincados penteados entrançados e lá iam remando, felizes da vida, como se fosse dia de festa.
Meio surpreso, meio divertido pela imagem, mais ainda com uns infelizes comerciantes de galochas mal dispostos a reclamar com os gajos do barco, Jay sentiu o telemóvel vibrar e ergueu-se da posição de cócoras em que se tinha posto enquanto inspeccionava maneira de atravessar a rua inundada. Tirou-o do bolso. Era uma foto enviada pelo Zé. Mostrava o tejadilho preto de um carro quase todo submerso em frente ao que parecia a casa do amigo. O texto dizia, “Que dia de m?rda!” Riu-se, provavelmente era o pouco afortunado Fiat Uno, que tinha tendência para irritar o Zé das formas mais incríveis.

Ric também recebeu a mensagem, mas não teve a oportunidade de a ver. Estava no escritório do avô, um homem alto de cabelos brancos que lhe tapavam as orelhas, mãos de dedos longos e magros, condizendo com a sua figura, que de pé em frente à secretária de madeira antiga, olhava fulminantemente para o neto, em silêncio.
– Nunca – a sua voz soou forte e ameaçadora, fazendo encolher Ric na cadeira. – nunca voltes a mexer nos meus pergaminhos! – Parecia trovão a reflectir nas estantes cobertas de livros e quase podia jurar que havia pequenos raios branco-azuis a relampejar entre os seus dedos.Agitava uma caixa prateada cilíndrica numa das mãos, que tinha escritos que diziam “Tempestades” numa letra enrolada e negra. – Nunca!
Ric desejou uma de duas coisas, acordar de um pesadelo ou que o avô lhe desse uma esfregona para limpar os estragos, mas ele apenas virou as costas fitando a foto do seu pai quando era da sua idade e esperou, mudo, que ele saísse da sala, com a palavra “Nunca” a ressoar nos seus ouvidos.

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