Crónicas de um Ouriço na Ericeira

Estava escuro e eu andava à procura da próxima refeição, uma larva ou um gafanhoto distraídos, quando ouvi qualquer coisa entre as ervas e ericei-me todo. Vinha qualquer coisa aí, e como não sou bom de ver de qualquer forma, não ia ficar à espera para ver, pelo que me pus em modo bola-de-espinhos e pensei que ficava safo, mas o pior veio depois. O modo bola-de-espinhos é muito fixe, mas dadas determinadas condições atmosféricas e ambientais, como vento e declive acentuado, as bolas rebolam. E heis que lá ia eu a rebolar, tal e qual o meu muito famoso primo, o Sonic. Sinceramente nunca percebi como ele ficou azul, afinal não é exactamente uma cor natural nos ouriços, mas há sempre quem pinte o cabelo, ou neste caso os espinhos. Bem, como eu estava a dizer… lá ia eu a rebolar em grande velocidade (os ouriços são rápidos afinal de contas, vejam o primo Sonic por exemplo), quando levo uma cacetada nem sem bem do quê! Aliás eu não vi o que era, porque como já disse estava em modo bola, mas seria uma criatura enorme de pele de borracha que me empurrou contra a calçada. Acho que até vi estrelas.

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Atordoado, sem saber exactamente para que lado ficava ao norte, senti alguém aproximar-se e a envolver-me com uma pele macia e a pegar-me. Tentei furar a pele mas não deve ter resultado porque fui parar a um sítio onde não se ouvia os sons da noite, só o estranho murmurar de uma grande criatura, como a que me tinha batido, pensei eu. Ou talvez algo maior. Quando me destaparam eu estava bem longe da minha toca, havia luz, mas ainda não tinha dado tempo de ser dia, e havia dois pernas longas, um macho e uma fêmea, por perto. Que foi, nunca viram um ouriço?! Como eu não estava interessado em ficar para jantar, ou ser o jantar (porque nunca se sabe o que os pernas longas estão a pensar, eles são capazes de comer qualquer coisa!) achei melhor dar à sola. A cacetada com a criatura patas-de-borracha não parecia ter feito danos permanentes, as patas funcionavam, as pernas funcionavam, os espinhos funcionavam (toma lá pernas longas fêmea, eu não sou para fazer festas!), pelo que comecei a dar às patinhas e procurar refúgio, como por exemplo, debaixo daquele grande tronco macio. Eh pá, que grande toca que se fazia aqui!

Fiquei ali sossegadinho à espera que se fossem embora. Confesso que estava um pouco assustado, mas quem não estaria, não é? Não é todos os dias que se encontra um bicho com mais de cinquenta vezes o nosso tamanho e que não nos come… logo. Porque tipicamente o que é maior que nós tenta nos comer. Alguns primos meus não tiveram tanta sorte como eu em encontros com o patas-de-borracha, se bem que eu bem lhes tinha avisado para evitar caminhos em que a erva não cresce, simplesmente não é natural. Se não é natural, não é bom.

Apesar do meu grande esforço para fingir que não estava ali, os pernas longas voltaram e voltaram a pegar-me. O meu modo bola-de-espinhos não é tão eficaz quando sou levantado no ar, e quando me pousaram eu estava… num buraco portátil? Era um buraco porque tinha paredes e uma abertura lá em cima, mas eu sentia pegarem-me e mudarem-me de sítio, sem de facto me pegarem e me mudarem de sítio. Não havia escapa do buraco, eu procurei. Nada a fazer se não esperar e ignorar a maçã que me tentaram impingir. Eu não gosto muito de fruta.

Deixaram-me naquele estranho buraco, com água e comida, que era horrível (eu até gosto de comida com fibra, mas isto era horrível! Mesmo!) e foram-se embora. Os pernas longas dormem à noite. Boa. Eu não. Eu tinha um plano. Primeiro sair deste buraco. Eles puseram uma folha? ou será um tronco? bem, era grande. Puseram-na por cima do buraco mas era leve pelo que com um jeitinho de patas caiu para o lado e, lá estava, liberdade. O chão era estranho, ora frio ora quente, ora rugoso ora liso, mas toda a noite tinha sido estranha, pelo que isso não me parou. Toca a mexer, zuka, zuka, zuka, sem saída… Zuka, zuka, zuka na direcção oposta, sem saída outra vez. Ora bolas, será que estou num buraco ainda maior?! Deixei uns presentes para os meus amigos pernas longas que eles não devem ter gostado e tentei novamente encontrar uma saída, sem sucesso. Estava preso. Sem escapa, voltei a procurar esconderijo por baixo dum tronco macio.

A noite deu lugar ao dia, o dia deu lugar a pernas longas acordarem e encontrarem-me outra vez. Gajos espertos, como me encontram sempre?! Sei que me levaram a viajar novamente naquele buraco portátil e quando dei por mim (estava um pouco ensonado, acontece-me durante o dia) estava numa jaula. Não eram más acomodações, havia água e comida que desconfiava em provar, depois da última vez… Tinha um chão de textura agradável e feno. Montes de feno! Feno suficiente para explorar, desviar e me esconder lá dentro e dormir.

Tive um sonho terrível. Sonhei que era um pequeno ouriço, que me tinha perdido e sido atacado por um enxame de moscas e mosquitos que me tinham picado todo, e depois larvas de mosca e mosquito enchiam-me os olhos e as orelhas e a boca e eu sentia que ia morrer, mas sentia também uma pata grande e quente a tentar confortar-me, e a dizer que tudo ia ficar bem, e lá ia eu, enrolado numa pele macia, quase sem conseguir mexer, a ser transportado por um pernas longas que corria desesperado até outro pernas longas que me ia espetar com algo grande e afiado e ai! Felizmente acordei nessa altura, felizmente era noite outra vez.

Os pernas longas tinham deixado grilos e minhocas na minha gaiola para eu comer, mas sinceramente grilos de lata não é a minha cena. Ou é fresco, ou não gosto. Mas havia outra coisa para comer, e eu já estava esfomeado. O que era isto? Hmm, sabe a galinha! Não sei, mas é bom. Há mais?

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Por uns instantes pensei que ia passar o resto da minha vida nesta gaiola, que nunca iria encontrar companhia e ter bebés ouriços, ou mais fácil, que nunca iria conhecer melhor essa terra de nome de Ouriço, Ericeira. Mas não é um ouriço como eu. São uns primos muito, muito afastados, que vivem na grande Poça de água salgada. Os pernas longas usam o nosso nome para tudo, há sítios onde vão que se chamam Ouriço, tão popular à noite como um banquete de ratos mortos, e há também ouriços doces. Onde é que já se viu? Só na Ericeira.

Como estava a dizer, por uns instantes pensei que ia aqui ficar para sempre mas heis que quando alguém agarra em mim… Bola-de-espinhos! Não sei para onde vou, mas se vou ser jantar ao menos vou dar luta. Mas não era jantar que os pernas longas estavam a pensar. Senti o cheiro das ervas e das flores, ouvi o chamar do vento, o chamar do mundo-lá-fora. Os pernas longas escolheram um sítio agradável cheio de possíveis tocas e pousaram-me no chão. Hesitei por um segundo, mas um segundo só. Patinhas para que vos quero! Entrei no meu mundo de ervas e bichos e terra. Voltei a casa.


Os ouriços são uma espécie protegida em Portugal e quase por toda a Europa. Não retire um ouriço saudável do seu ambiente natural. Se encontrar um ouriço ferido, pode entregá-lo em centros de recuperação próprios para estes animais, como por exemplo o Centro de Recuperação de Animais Silvestres do Parque Florestal de Monsanto.

1 Comentário

Filed under Short Stories, trivia

One response to “Crónicas de um Ouriço na Ericeira

  1. Maria Almeida

    Que texto tão lindo! Obrigada

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